|
Sabe-se
que Perico, El Bailarin, ou seja, o brasileiro natural de Viamão,
Pedro José Vieira, desempenhou importante e arrojado
papel no Uruguai, quando ainda Província Cisplatina,
ao lado de Venâncio Benavides.
Pedro
José Vieira era natural de Viamão, onde nasceu
no último quartel do século XVIII. Mocinho ainda,
saíra de casa perambulando, ora como peão, ora
como ajudante de tropeiro, ora como capataz de estância,
entre Arroio Grande, Piratini, Jaguarão, radicando-se
afinal, após a conquista das Missões (l801), no
Uruguai que percorreu em todos os sentidos, até a Argentina.
Ativo,
inteligente, bom conversador e irrequieto, bom "sapateador"
nas festas galponeiras, Pedro José Vieira logo se distinguiu
por seu espírito lhano, liberal e atitudes másculas
de bondade e justiça. Aurélio Pôrto assim
o descreveu: - "um autêntico herói internacional,
que jornadeava com Artigas, que deu o grito de Aseêncio,
que erguera, com Bolívar a San Martin, a bandeira da
unidade sul-americana, que a Revolução Farroupilha
atraiu como atraíra a todo o espírito liberal,
a ela -.,e incorporando de corpo e alma, com o pôsto de
coronel, que já trazia das lutas ao lado de Artigas,
Bolívar e San Martin.
Pertenceu
às hostes farroupilhas dirigidas pelo General Domingos
Crescêncio de Carvalho e de seu irmão, ao que tudo
indica, Coronel Félix Vieira que também andou
lutando pelo Uruguai. Félix Vieira não foi um
homem mas sim um leão do Atlas que, de serrania mauritana,
fôra dar, ameaçativo, nas campinas da Pampa continentista"
"Um dos oficiais mais empreendedores da fôrça
de Crescêncio e de valor demarcado..". Devia, entretanto,
ser pouco mais môço que Perico, El Bailarin.
Fernando
Luís Osório (filho) em belo estudo - "Um
Gaúcho Brasileiro - Promotor do Prólogo da Independência
do Uruguai" ... (RIHGRGS - III,/,lV trim. de 1930 - págs.
557 e sgts.), declarou: "Pedro Vieira, filho de Viamão
e domiciliado no vale do Rio Negro (. ..) irradiou o espírito
rio-grandense na América, a cujo patrimônio comum
pertence." - E continua, mais adiante: "Na terra do
pericón e das vidalitas tinha o nosso herói romanesco
o apelido de "Perico, el Bailarin" porque, personagem
modesto de nossa linha fronteiriça, filho da terra do
amor e da hospitalidade, que era o antigo Rio Grande das tiranas
e das chimarritas, tomava parte nos bailes "criollos",
ao som da guitarra tradicional e romântica, com a sua
fôrça de presença, a fascinação
da sua irradiante figura, popularizando-se "por su destreza
en bailar sobre zancos, lo que le atrajo el mote de "Perico,
el Bailarin" (História Política y MWtar de
Ias Republicas del Plata - de Antonio Diaz, - cit. por Fernando
Osório (Filho), ob. cit.).
Pedro
José Vieira, era, como já dissemos, um tipo alegre,
conversador, folgazão, enérgico, justiceiro e
sempre disposto a tomar iniciativas, o que fêz o historiador
uruguaio Santiago Bollo dizer: - "Viera con su genial travesura
-.e adelantó hasta el pueblo con algunes gauchos e intimo
el comandante Fernández e proclamou a independência
uruguaia, apossando-se de Mercedes e Sorriano e entregando depois,
sua obra a Artigas.
Os primeiros predicados deram-lhe o cognome de "Perico"
que significava, na antiga linguagem de nossas fronteiras e
que ainda consta de alguns de nossos dicionários - caturrita,
papagaio conversador - e o último, sapateador e periconero,
- o de "bailarin". Assim, seu apelido galponeiro -
Perico, el Bailarin, - se traduziria por "caturrita"
(barulhento ao falar), ou "papagaio (verde e vermelho)
dançador". Vieira, aliás, muito se orgulhava
dêsse cognome.
O "pericón",
com versos improvisados na hora, ou especialmente preparados
antes, hoje bailado nacional uruguaio, não é de
origem lusa e nem foi criação de Pedro José
Vieira, se bem possa ter êle introduzido partes novas,
como a dos lenços azuis e brancos, e, mesmo, partes de
outras danças populares. Disso, entretanto, não
existe constância alguma ao que sabemos, mas apenas suposições.
El Pericón
tem seu fundamento nos "Cielitos", "del cual
conserva intacto el valseado, el requiebro arrorcso y Ia donosura
gaucha", declara o especialista em danças platinas
D. Lázaro Flury (Danzas Folklóricas Argentinas
- Coleción Ceibo, Buenos Aires, 1947 - pág. 27).
E continua
Flury - "Pero el criollo necesitó algo mád,
y mezcló en el Pericón figuras de otros bailes
que lo hacen algo asi como un "pot pouri" de danzas
vernáculas. EI nombre "pericón" viene
del apelativo "pericón" con que se designaba
al que dirigia el baile, o sea el actual bastonero".
Por
sua vez o "Cielito" provém, em parte, da "Jota"
espanhola, popular em Aragon, Valencia e outros pontos de Espanha,
que, no geral, "parecen mas bien el de un fandango castellano"
(Eduardo Lopez Chavarri - "Música Popular Espaflola"
Barcelona, 1927 - pág. 112 e outras). Os instrumentos
para a "jota" são guitarras de diversos tipos:
"guitarrón" (quitarra más pequeila que
ya se usa muy poco), tiples (guitarra todavia más pequena)",
além da guitarra comum (ob. cit.).
O "Celito",
esclarece Martiniano Leguizamón (EI Primer Poeta Criollo
del Rio de La Plata - Paraná, Rep. Arg. - 1944), origina-se
de "cielo": - "La danza, la música y la
palabra aunadas en las reuniones populares, desde los tiempos
más remotos, tienem entre nosotros el nombre siinpatico
de "eielo". De onde "Cielito" (pág.
8).
Ricardo
Escuder, entretanto, em seu estudo "EI Pericón -
Baile Nacional del Uruguay" (Montevidéo, 1936 -
pág. 7), escreveu: - "Aunque el origen rudimentário
del Pericón és imposible de fijar con exactitud
cronologica, puede afirmarse retundamente, que és rioplatense
genuino. Algunos lo ubican en Ia Argentina y otros en el Uruguay".
Quanto à data do aparecimento do "pericón",
Ricardo Eseuder não acredita en sua antigüidade,
contrariando até documentos, e diz que o poeta Carlos
Roxol fantasiou ao aludir "a sua ejecución junto
a los fogones de los campamento de Artigas". E declara
que "El Pericón" sómente começara
a ser citado depois de 1870! Refere-se, naturalmente, a referências
de estrangeiros, viajantes... E o que ficou nos relatos da batalha
de Chacabuco, em 1817, como a seguir diremos, será fantasia?
É
possível que não tivesse ainda o nome e a popularidade
que depois o consagrou, definitivamente. Mas que foi, sempre,
"baile del pericón", não há dúvida.
O Pericón
não é apenas popular na República Oriental
do Uruguai, mas também na Argentina de onde foi para
o Chile, levada, em 1817, conforme nos conta a história,
por D. José de San Martin, cujos soldados ali o dançaram
três dias após a batalha de Chacabuco (l2-2-1817)
em regozijo da vitória. E lá estêve com
San Martin, nosso coprovinciano Coronel Pedro José Vieira
que, por certo, foi o dirigente da festa e da dança,
que bailava como ninguém, sendo dêle, ao que supõem
alguns poucos, a introdução, ali improvisada,
da coreografia com "panuelos azueles y blancos, las cores
nacionales argentinas", e que hoje faz parte integrante
do Pericón.
Esta
parte final do bailado fêz com que, num transporte patriótico,
cantassem, a seguir, o Hino Argentino, agitando os lenços
ali, em pleno território chileno, sob os aplausos de
San Martin e seu Estado Maior e autoridades outras .
Vemos,
portanto, que nosso herói farroupilha, o viamonense Pedro
José Vieira, recebeu o apodo de "Perico, el Bailarin"
não apenas por ser grande bailarino, inclusive do Pericón,
mas também por ser autêntico "perico"
- isto é: periquito barulhento e alegre, conversador
e "travesso" como um papagaio amestrado, sem maldade
na paz, mas terrível na guerra.
Construtores
do Rio Grande - Walter Spalding. Livraria Sulina Editora, 1969.

Voltar
|